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priorização de iniciativas de inovação (2ª passagem: critério de encerramento e liberação de atenção gerencial)

Quando encerrar um projeto de inovação que não escala

Marlon TrettinPublicado em Atualizado em 9 min de leitura
Laboratório silencioso à noite com uma instalação de protótipo sendo desligada dentro de uma redoma de luz âmbar, enquanto uma pessoa de costas caminha em direção à porta iluminada

Encerre um projeto de inovação quando ele deixa de responder à pergunta que o originou, não quando o orçamento acaba. A decisão trava porque quase nenhuma iniciativa nasce com critério de parada escrito, dono definido e data marcada para revisar. Sem essas três coisas, encerrar depende do julgamento de alguém, e julgamento pessoal perde para o custo já investido.

Por que encerrar um projeto de inovação é tão difícil?

Porque a decisão foi desenhada como pessoal quando deveria ser estrutural. Quem aprovou o piloto é quase sempre quem precisa admitir que ele não vai a lugar nenhum. Nessa configuração, cada mês de sobrevida custa menos do que a conversa de encerramento.

A literatura chama isso de escalada de compromisso, o hábito de continuar investindo em um curso de ação que já não se sustenta. O estudo de Mark Keil, Joan Mann e Arun Rai publicado na MIS Quarterly mediu a frequência do fenômeno em projetos de sistemas de informação e encontrou algum grau de escalada em 30% a 40% deles. É um trabalho de 2000, e o número continua sendo citado porque o mecanismo não mudou: o que sustenta o projeto vivo não é a evidência a favor, é o que já foi gasto.

Some a isso o desenho típico da área de inovação. O piloto tem verba pequena, prazo curto e visibilidade alta. Ninguém precisa aprovar uma renovação formal, porque nunca houve um encerramento formal previsto. O projeto simplesmente continua, consumindo reunião de acompanhamento, licença de ferramenta e uma fatia da agenda de quem poderia estar destravando outra coisa.

Qual o custo real de manter um projeto que não escala?

O custo é a atenção de quem decide. Em texto sobre a transição entre piloto e rollout na MIT Sloan Management Review Brasil, Maximiliano Carlomagno é direto: o recurso mais escasso em empresas estabelecidas é a atenção gerencial. É ela que garante alocação de gente, sinaliza prioridade e mobiliza a organização. Se o projeto não é importante para alguém relevante, ele não escala.

O mesmo texto cita dado da 500 Startups segundo o qual metade das empresas converte no máximo 10% dos pilotos em negócios. Ou seja: a maior parte do que uma área de inovação inicia não vira operação. Isso é esperado em um portfólio de experimentos. O que não é esperado é essa maioria permanecer aberta.

A medição da S&P Global Market Intelligence, com mais de mil respondentes na América do Norte e na Europa, mostra o outro lado do movimento. A fatia de empresas que abandonaram a maior parte das iniciativas de IA subiu para 42% em 2025, contra 17% no ano anterior, e a organização média descartou 46% das provas de conceito antes da produção. Ler isso como fracasso é ler errado. Descartar prova de conceito é o desenho funcionando. A pergunta útil é quanto tempo cada uma ficou aberta antes do descarte.

Como saber que chegou a hora de encerrar?

Três sinais bastam, e nenhum deles depende de opinião sobre a qualidade da ideia.

O primeiro é a pergunta original. Todo projeto de inovação começa para responder alguma coisa: se um gargalo específico cede, se um público usa aquilo, se o custo cai. Quando a resposta já chegou, o projeto acabou, inclusive quando a resposta é positiva. A partir dali é outro projeto, com outro escopo e outro orçamento, e precisa ser aprovado como tal.

O segundo é a origem do movimento. Projeto que avança só quando alguém empurra é projeto sem dono na operação. Meça de forma simples: nas últimas quatro semanas, quantas ações do projeto partiram da área que vai usar o sistema e quantas partiram da área de inovação. Quando o segundo número é o único diferente de zero, você tem um piloto que a operação tolera, não um que ela quer.

O terceiro é o caminho até a produção. Antes de renovar qualquer coisa, pergunte quem paga a sustentação no ano que vem, quem responde pelo sistema quando ele cair às 22h e de qual orçamento sai a integração com o ERP. Se ninguém tem resposta, o projeto não está atrasado. Ele está sem destino, e sem destino ele não chega, por melhor que tenha sido o resultado do teste.

Como decidir o encerramento antes de começar?

Escrevendo quatro linhas no momento da aprovação, não no da crise. A pergunta que o projeto responde. O critério que autoriza continuar. Quem tem autoridade para encerrar. A data em que essa conversa acontece de qualquer jeito.

Essas quatro linhas mudam a natureza da decisão. Encerrar deixa de ser alguém admitindo erro e passa a ser o cumprimento de um combinado feito quando ninguém tinha ego investido. É a mesma lógica de uma cláusula contratual: você negocia a saída enquanto a relação está boa.

O Brasil ainda faz pouco disso. O Mapa da Inovação 2026, estudo da AEVO com gestores de 212 empresas de setores como indústria de transformação, tecnologia e serviços financeiros, mostra que 60,1% das companhias não possuem estrutura formal de governança de inovação e 38,1% não definiram indicadores para medir se os projetos funcionam ou geram desperdício. No mesmo levantamento, 92% desenvolveram algum produto, serviço ou processo novo entre 2024 e 2025, e apenas 29% comprovaram ganho financeiro concreto. A distância entre esses dois números é a distância entre iniciar e concluir a decisão.

Um cenário hipotético, com escala realista, ajuda a ver o mecanismo. Uma gerente de inovação de uma indústria de médio porte no interior de São Paulo tem onze iniciativas no quadro. Ao aplicar os três sinais, encontra quatro que responderam à pergunta original meses antes, duas que só andam quando ela cobra e uma que nenhuma área aceitou sustentar. Encerra sete. A verba liberada é modesta, algo em torno de licenças e horas de fornecedor. O que muda de fato é a agenda: as reuniões quinzenais de acompanhamento desses sete projetos somavam quase um dia útil por mês dela e de dois gestores de área. Esse dia vai para a iniciativa mais avançada entre as quatro que sobraram, que tinha caminho até a produção e estava parada por falta de gente.

O que se aproveita de um projeto encerrado?

Mais do que costuma ser registrado, porque o encerramento raramente tem um entregável definido. Três coisas sobrevivem quando alguém se dá o trabalho de guardá-las.

A primeira é o dado. Um piloto que rodou seis semanas em uma unidade costuma produzir a primeira medição confiável daquele processo. O software foi descartado, a série histórica não, e é ela que sustenta o business case da próxima tentativa. Vale o cuidado de guardar com padrão de qualidade, porque medição solta em planilha de projeto morto some junto com o projeto.

Depois vem a integração. Conectar um sistema legado a um serviço externo costuma ser a parte cara do piloto, e o conector continua valendo mesmo quando a hipótese testada não se confirma. A lógica é a mesma que aplicamos em plataformas herdadas, como no trabalho com a Colo Saúde: o que já existia virou base auditada, não entulho a descartar.

Por último, a especificação. Um artefato provisório que passou por uso real descreve o sistema certo com uma precisão que levantamento de requisitos em sala de reunião raramente alcança, e isso vale tanto para o piloto que morreu quanto para a solução improvisada que chegou ao limite. Na SuperVida, a gestão de contratos rodava numa base improvisada em Airtable, e os dados e os fluxos que já rodavam ali foram o ponto de partida do ERP sob medida. Na UniTrust, o primeiro sistema entrou no ar em duas semanas por imposição de prazo, depois de os fundadores romperem com o IMO anterior, e foi o uso real dele que definiu o que a plataforma precisava se tornar.

Perguntas frequentes

Encerrar um projeto não desmotiva o time que trabalhou nele?

Desmotiva quando o encerramento chega como veredito de qualidade. Não desmotiva quando a regra estava escrita desde o começo e o time participou de aplicá-la. Ajuda muito separar duas coisas na comunicação: o projeto acabou, e o aprendizado dele entrou no próximo. Time que vê o próprio dado sendo usado adiante entende o encerramento como ciclo.

Como justificar à diretoria que investimos e vamos parar?

Apresentando o encerramento como resultado do processo de decisão que a diretoria aprovou, com o número do que foi aprendido e o do que foi liberado. Diretoria reage mal a projeto que morre em silêncio depois de dois anos de relatório otimista. Reage bem a portfólio com data de revisão, porque isso é exatamente o controle que ela pede quando aprova a verba.

E se o critério de parada estiver errado e a empresa matar algo bom?

É um risco real, e a proteção é escrever o critério junto com quem vai usar o sistema, não só com quem patrocina. Preveja também a reabertura: um projeto encerrado com dado e especificação guardados pode voltar depois sem repetir o custo de descoberta da primeira rodada. O que não volta é a atenção gasta mantendo dez projetos meio vivos.

Um portfólio de inovação se define pelo que ele encerra

A capacidade de encerrar é o que separa um portfólio de uma lista de projetos abertos. Ela não vem de disciplina individual nem de cultura de tolerância ao erro. Vem de arquitetura: pergunta escrita, critério de continuidade, dono da decisão e data no calendário, tudo definido antes da primeira reunião de kickoff.

Se o seu quadro de iniciativas cresce todo trimestre e nunca diminui, o gargalo não está na execução dos projetos. Está no desenho de como eles terminam. Um Diagnóstico de Arquitetura Operacional de 30 minutos serve para olhar esse desenho com você e identificar onde a decisão está travando.

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Marlon Trettin

Marlon Trettin

Fundador da Yowpi · 25+ anos de engenharia de software

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