Blog
planilhas → sistemas internos (4ª passagem: o erro que a planilha não deixa ver)

Erro em planilha: por que ninguém percebe até custar

Marlon TrettinPublicado em 7 min de leitura
Passarela industrial à noite ao lado de grandes tanques metálicos, um deles com uma rachadura brilhando em âmbar, enquanto um técnico de capacete se afasta de costas olhando um tablet

O erro em planilha passa despercebido porque a planilha não tem revisão, trilha de alterações nem separação entre dado e regra. Quem digitou confere o que viu, e o resto só aparece quando o número vira cobrança, comissão ou decisão. Não é falha de atenção, é problema de arquitetura: a saída é tirar a regra da célula.

Quão comum é o erro em planilha?

Mais comum do que a rotina sugere, e em geral pequeno por célula. Powell, Baker e Lawson auditaram planilhas operacionais reais e encontraram erro em 0,8% a 1,8% das células com fórmula, conforme o critério usado para classificar o que conta como erro (arXiv). Num estudo seguinte, sobre 25 planilhas de cinco organizações, os mesmos autores viram que muitos erros tinham impacto desprezível, mas alguns afetavam partes críticas do cálculo.

O número parece baixo até a conta de volume. Uma planilha com 2.000 células de fórmula, no intervalo acima, teria entre 16 e 36 delas com erro. É uma aplicação ilustrativa da taxa, não uma medição de uma planilha específica. O ponto é que cada célula errada é uma chance de o resultado final sair torto, e ninguém sabe qual.

Um segundo dado vem de um contexto sem relação com empresas, o que o torna útil. Ziemann, Eren e El-Osta varreram os arquivos suplementares de 3.597 artigos de 18 revistas de genômica. Em 704 deles (19,6%), nomes de genes tinham sido convertidos em datas pelo Excel, e a lista publicada estava errada (Genome Biology). Eram artigos de revistas com revisão por pares, feitos por pesquisadores treinados com a ferramenta de sempre.

Por que ninguém percebe o erro?

Porque a planilha mostra o resultado e esconde a regra. A regra mora dentro de uma célula, formatada como número, ao lado de outras 1.999. Se o valor é plausível, ninguém abre a fórmula.

Há três razões estruturais.

A primeira é que dado e regra ocupam o mesmo lugar. Quem altera um valor de entrada pode, sem querer, sobrescrever uma fórmula, e o arquivo aceita as duas coisas do mesmo jeito.

A segunda é que não existe trilha. A planilha não registra quem mudou a fórmula da coluna F, quando e por quê. Quando o resultado destoa, o histórico não está lá para consulta.

A terceira é a cópia. Planilha que circula por e-mail ou pasta compartilhada vira várias versões, e cada uma carrega seus próprios ajustes. O erro corrigido numa delas continua vivo nas outras.

O que o caso do JPMorgan mostra sobre a planilha que decide?

Mostra o mesmo mecanismo, em escala de banco. O relatório interno que o JPMorgan Chase publicou em janeiro de 2013 sobre as perdas de 2012 da área de investimentos descreve um modelo de risco que operava "por meio de uma série de planilhas Excel, que tinham de ser preenchidas manualmente, por um processo de copiar e colar dados de uma planilha para outra". Uma das fórmulas dividia pela soma em vez da média, como o autor do modelo pretendia, o que reduziu a volatilidade calculada a cerca da metade e fez o risco parecer menor do que era (resumo da Society of Actuaries, que cita o relatório).

O que importa aqui não é o tamanho do banco. É a combinação: cópia manual entre arquivos, regra dentro da célula e ausência de revisão independente. Muita empresa com uma planilha de comissão, de precificação ou de fechamento tem os mesmos três ingredientes, num prejuízo menor e igualmente invisível.

Como isso aparece numa distribuidora?

Um cenário hipotético, para tornar o mecanismo concreto. Os números abaixo são ilustração, não medição de cliente.

Uma distribuidora com 40 representantes calcula a comissão mensal numa planilha. São seis regras: percentual por faixa, bônus de meta, desconto por devolução, entre outras. A base de vendas vem do ERP em CSV, é colada numa aba, e uma segunda aba aplica as regras. Em março alguém ajusta a faixa de um produto e cola a fórmula só em parte da coluna.

Nada quebra. As comissões saem com valores plausíveis, 3 representantes recebem um pouco a mais, 2 um pouco a menos. O erro só aparece quando um deles confere a conta por conta própria, dois meses depois, e a pergunta passa a ser quantos meses estão errados e a quem se deve o ajuste.

Nesse momento o problema deixou de ser de fórmula e passou a ser de arquitetura. A empresa não consegue dizer qual regra estava valendo em cada mês, porque a planilha guardou só o último estado.

Quando a planilha passou do ponto?

Quando o resultado dela vira dinheiro ou decisão e mais de uma pessoa mexe nela. Três perguntas ajudam a decidir.

Alguém copia dados de um arquivo para outro todo mês? Se sim, a cópia é o ponto de falha.

Dá para dizer, hoje, quem alterou uma regra e quando? Se não, não há como investigar um erro.

O resultado alimenta cobrança, pagamento ou comissão? Se sim, o erro tem destinatário.

Duas respostas ruins já justificam tirar a regra da planilha. Isso não significa abandonar a planilha: ela segue boa para análise e para exploração. O que sai dela é o cálculo que a empresa precisa conseguir auditar.

Na prática, a mudança tem quatro partes. A regra passa a morar em um lugar só, com versão. A entrada é validada na origem, em vez de colada. Cada alteração fica registrada com autor e data. E o cálculo tem um teste: um conjunto de casos com resultado conhecido que roda a cada mudança. O caminho para chegar lá sem parar a operação está em como migrar de planilhas para um sistema, e o critério de quando fazer a troca está em quando trocar planilhas por um sistema interno.

No case Reatop, a Bumerangue controlava resíduos hospitalares em planilhas e anotações em papel, um método sujeito a erro e atraso de consolidação. O sistema passou a ter backoffice integrado e aplicativo móvel com uso offline, de modo que o registro nasce em um só lugar.

Perguntas frequentes

Minha equipe está acostumada com planilha. Ela vai aceitar outra coisa?

Tende a aceitar quando a primeira entrega resolve uma dor que ela já sente, como a conferência manual do fechamento. Comece por um fluxo só, o de maior consequência financeira, e mantenha a planilha rodando em paralelo por um período curto, com data de corte. A equipe passa a defender o sistema quando vê que o número fecha sem a rodada de conferência.

Como saber se vale o investimento, ou se o retorno existe?

Meça antes o custo do erro e da conferência. Quantas horas por mês vão em checar e refazer, quantos ajustes retroativos já ocorreram, quanto custou o último. Se o resultado da planilha já gerou uma disputa com cliente, representante ou fornecedor, esse número existe. Se não gerou e a planilha só serve a análise, talvez ela fique onde está.

Não tenho equipe técnica para construir e manter isso. Isso me impede?

Não, desde que a decisão sobre as regras fique com você. Ninguém de fora sabe qual faixa de comissão vale para qual produto, e isso precisa estar escrito. A construção e a sustentação podem ser contratadas, com documentação e acesso ao que foi entregue previstos em contrato.

O próximo passo

Se há uma planilha na sua empresa que fecha pagamento, comissão ou preço, vale mapear onde a regra mora e quem pode alterá-la, e o Diagnóstico de Arquitetura Operacional é uma conversa de 30 minutos para começar esse mapeamento.

Cases relacionados

Marlon Trettin

Marlon Trettin

Fundador da Yowpi · 25+ anos de engenharia de software

LinkedIn
Próximo passo

Reconheceu a sua operação neste artigo?

Agende o Diagnóstico de Arquitetura Operacional: 30 minutos para mapear onde está o gargalo da sua operação. Sem proposta na primeira conversa.

Agendar diagnóstico